quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

TREINAR PRA QUÊ?

Uma vez, no final de uma aula de treinamento, um dos praticantes perguntou:
— Professor, acho que esse negócio de arte marcial é divertido... mas pra que temos de aprender isso? Qual a utilidade disso?
— Bem, — respondeu o professor, — suponha que tudo o que você tem é uma faca? Ou talvez nem mesmo uma faca? O que você faz? Vai apenas fazer suas orações e morrer? Ou vai em frente de qualquer forma e faz o outro desistir de te matar? Isto é sério — não é um jogo de xadrez que você pode desistir se está com uma desvantagem muito grande...
— Mas é isso mesmo que eu quero dizer, professor. Suponha que eu esteja desarmado? Ou, vamos dizer, apenas com um canivete enquanto o homem que estou enfrentando tem todos os tipos de armas perigosas? Não há nada que eu possa fazer; ele irá me derrubar à primeira vista.
O professor respondeu quase que amável:
— Você entendeu tudo errado. Não há tal coisa de "arma perigosa".
— Como assim professor?
— Não existem armas perigosas; o que há são HOMENS PERIGOSOS. Estou tentando ensinar você a ser perigoso — para o seu oponente. Perigoso mesmo sem um faca ou pistola. Mortal enquanto ainda tiver uma mão ou um pé operante e estiver vivo e lúcido. Se não sabe o que eu quero dizer, leia aqueles relatos históricos em que algumas centenas de homens derrotaram exércitos de milhares de soldados como no caso das Termópilas e os 300 de Esparta. Mas vamos tomar o caso que você mencionou primeiro; eu sou você e tudo o que tenho é um canivete. O alvo atrás de mim é um terrorista, armado com tudo menos com uma bomba nuclear. Preciso silenciá-lo imediatamente não deixando que ele use seu arsenal...
O professor se virou levemente — Chunk! — uma lâmina que não estava sequer em sua mão agora vibrava no centro do alvo. — Vê? É melhor carregar duas facas — mas você tem de atingi-lo, mesmo com as mãos vazias.
— Mas...
— Ainda há algo preocupando você? Fale. É pra isso que estou aqui, pra responder suas questões.
— Certo, professor. O senhor disse que o terrorista não tinha uma bomba, mas digamos que ele tenha uma bomba; esse é o ponto. Uma bomba que será acionada caso ele morra.
— Entendo.
— Bem... entende, professor? Se podemos usar uma bomba também, — e como o senhor disse, isto não é um jogo de xadrez; é sério, é combate e ninguém está pra brincadeira — não é um pouco ridículo ficar por aí se arrastando no tatame, atirando facas, golpeando sacos de pancada e lutando pra talvez ser morto por um tiro ou uma explosão... e até mesmo estar resistindo inutilmente quando podemos usar uma arma de fogo de verdade ou um míssil que pode garantir a nossa vitória? Qual é o sentido de um monte de homens treinando com armas improvisadas e arriscando suas vidas diante de um adversário armado e mais forte quando um cientista ou um político pode fazer muito mais apenas apertando um botão ou assinando uma ordem?
O professor não respondeu imediatamente, o que não era de modo algum típico dele. Então disse suavemente:
— Você está feliz na academia? Pode desistir, você sabe.
O aluno hesitou mas replicou:
— Não estou com vontade de desistir, professor.
— Certo. Bem, a questão que perguntou é uma que um simples professor de artes marciais não está realmente qualificado para responder... Mas vamos supor que você soubesse a resposta antes de ter se inscrito nesta academia. Ou pelo menos devia saber. Sua escola tinha a matéria de História e Educação Moral e Cívica?
— Sim, claro que tinha, professor.
— Então você já ouviu a resposta. Mas vou lhe dar a minha própria visão disto — não-oficial. Veja, se você quisesse ensinar uma lição para um garoto, você cortaria a cabeça dele?
— Ora... não, senhor!
— É claro que não. Você daria no máximo uma leve palmada. Pode haver circunstâncias onde é tão tolo destruir um inimigo com uma bomba como seria espancar uma criança com um machado. A guerra, a luta, o combate, enfim, qualquer confronto físico, não é violência e matança, pura e simples; guerra é violência controlada, com um propósito. O propósito da guerra é apoiar as decisões do Governo pela força. O propósito das artes marciais também nunca é matar o inimigo por matar... mas sim fazer com que ele faça o que você quer que ele faça. Não é massacre... mas sim violência controlada, com método. Mas não cabe a você ou a mim decidir o propósito desse controle. Nunca cabe a um homem sozinho decidir quando ou onde ou como — ou por quê — ele será obrigado a lutar. Um político pode encontrar uma razão para a guerra e um general pode encontar os meios para cumprir essa missão. Mas na hora da luta real e do calor da batalha um homem, seja ele um soldado ou um civil, deve fornecer a violência enquanto a polícia fornece o controle. O que é como devia ser. Essa é a melhor resposta que posso lhe dar.

(inspirado em trechos do livro "Starship Troopers", de Robert A. Heinlein)

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