sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

SOBRE AULAS PARTICULARES

Tradicionalmente no passado o aspirante às artes marciais, uma vez aceito como aprendiz em uma escola militar ou templo, tinha a esperança de se destacar no grupo para - com sorte - obter a chance e o privilégio de ser escolhido para um treinamento paralelo e privativo com o instrutor-chefe.
Hoje estas sessões reservadas são chamadas de “aulas particulares”.


Os alunos acreditam, e com toda a razão, que na aula particular terão mais atenção do seu instrutor e aprenderão mais rápido. Aulas particulares costumam ser até 10 vezes mais caras do que uma aula formal em grupo. Logo, é importante que o instrutor ofereça a atenção que o aluno espera e merece. Porém, aulas particulares podem ser abusivas economicamente se o período gasto na sessão não compensar seu investimento e o aluno não conseguir medir o seu retorno em habilidades e benefícios palpáveis.
Veja como alguns instrutores sem escrúpulos se aproveitam da ingenuidade dos leigos.

“Se você escolher o plano de 12 meses nós lhe daremos 1 aula particular por semana pela metade do preço.”

Parece interessante não? O que o aluno não percebe é que aquela aula semanal já estará incluída no plano anual e que o valor real (sem desconto) cobrado por ela foi embutido no pacote. Ou seja, além de pagar uma determinada quantia adiantada não recebeu absolutamente nada em troca daquela vantagem financeira prometida...

Certas escolas e instituições também incluem aulas particulares para que um instrutor seja o personal trainer do aluno e lhe dê atenção especial e exclusiva. Após muita bajulação, o aluno é “amparado” na execução das técnicas e exercícios e incentivado a fazer um exame de graduação para concorrer a alguma faixa colorida ou diploma internacional e adquirir um novo produto na sequência – tudo por uma certa soma, é claro. O que começa com um valor relativamente conveniente acaba terminando na cobrança de taxas extras abusivas (vide as dispendiosas “taxas de matrícula”).

Considere as verdadeiras vantagens das aulas particulares:
1 – Atenção personalizada;
2 – Facilidade de agendamento das datas e horários mais convenientes;
3 – Desempenho e avaliação acima da média.

Ainda assim, o treinamento em turmas, e no formato de personal group praticado em classes com máximo de 10 praticantes (acima deste número é indicado a presença de instrutores-assistentes), tem suas vantagens:
1 – Custo mais baixo;
2 – Capacidade de treinar com uma variedade de pessoas de diversos biotipos;
3 – Um aluno motivado adapta sua agenda e participa de ao menos duas classes semanais;
4 – O instrutor não poderá iludi-lo com elogios e promessas uma vez que o praticante estará interagindo com outros parceiros que também irão comparar e avaliar sua performance;
5 – Os alunos podem se ajudar entre si observando e aprendendo com os praticantes mais avançados além do instrutor.

Mesmo se com isso aqueles instrutores suspeitarem que sem aulas particulares estarão impedidos de lucrar com um provável candidato, as aulas em grupo devem ter prioridade na didática de qualquer entidade séria e compromissada com os alunos.

Felizmente há outras maneiras de se combinar tanto a aula coletiva e a particular para gerar mais benefícios e acelerar o aprendizado:
1 – Aulas em grupo favorecem um rápido e potente condicionamento físico, criando um “espírito de equipe” entre os praticantes com uma atmosfera de vigor e energia no ambiente. E, ao conquistar um bom preparo físico, o aluno aproveitará melhor o tempo de sua aula particular.
2 – Os alunos iniciantes podem aprender também observando e praticando com os mais avançados. Isso obviamente irá facilitar seu aprendizado em geral bem como acelerar seu desempenho nas aulas particulares.
3 – Sempre deverá haver um período reservado quando novo conteúdo será ministrado sem necessidade de “aulas extras”. A aula particular serviria somente para se aprofundar em algum ponto ou aspecto teórico que eventualmente tenha se tornado um desafio para o aluno compreender e aplicar, conforme suas limitações e metas pessoais. Por exemplo: um civil e um esportista amador precisam adquirir primeiro habilidades marciais e resistência corporal a curto prazo (1 a 3 meses) e atender suas urgências defensivas e de manutenção da saúde, enquanto um atleta de ponta e um profissional da segurança treinam incansavelmente para manter e ampliar seu desempenho acima da média, superar platôs e evoluir a longo prazo (temporadas de 6 meses a 1 ano no mínimo).

Se o instrutor continuar achando que por causa das aulas coletivas o seu ganha-pão lhe está sendo tirado, então é porque na verdade não tem o conhecimento e a experiência suficiente para compartilhar em primeiro lugar.

Aulas particulares são úteis e não há o que contestar.

Contudo, devem ser voluntárias e com objetivos pré-definidos visando atingir um diferencial ou solucionar alguma deficiência suplementando o treinamento regular. Repetindo: aulas particulares só devem ser agendadas quando forem necessárias e desejadas pelo praticante.
Os novos alunos também devem ser orientados individualmente não importa se participando ou não das aulas particulares que os seus parceiros frequentam. Por isso, é indicado que tenha a sua própria Ficha de Monitoramento onde será avaliado e terá seu desempenho e assiduidade conferidos e analisados periodicamente. Um treinamento inteligente deve ser planejado e receber acompanhamento contínuo por parte do instrutor responsável.
O treinamento em separado com um instrutor competente é importante, desde que não limite a integração do aluno com os demais estudantes. E nas artes marciais é essencial se relacionar com diferentes tipos de pessoas: um atacante surge nas mais diversificadas formas e tamanhos.

Enfim, aulas particulares são ótimas ferramentas sobressalentes visando alavancar e sinergizar o desenvolvimento do aluno, desde que não separem o praticante de seus parceiros... ou do seu dinheiro.

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