sexta-feira, 30 de abril de 2010

O GATO LUTADOR


Uma vez eu tive um sério problema com uma ratazana feroz em minha casa.

O intruso se escondia no telhado durante o dia e a noite descia para aprontar todo tipo de desordem na casa. Nem meu jovem gato de estimação conseguiu enfrentar o enorme rato. Então resolvi pedir emprestado alguns gatos domésticos dos meus vizinhos no bairro, felinos mais velhos e habilidosos do que o meu bichano. Depois fiquei escondido em um canto para observar os gatos se aproximando da ratazana que furiosamente atacou um atrás do outro e os colocou para correr sem piedade. Nenhum gato foi capaz de vencer a resistência do roedor e fugiram para não serem mortalmente feridos.

O que fazer? Bem, peguei um bastão e parti para o confronto. Mas também fui superado em destreza, com o rato desviando-se de todos os meus golpes. Era como tentar alfinetar uma mosca em pleno vôo... Certo momento a ratazana até chegou a subir em minha cabeça para demonstrar sua ousadia!
Cansado e sem meios de encurralar a praga, também desisti de caçá-la para recuperar o fôlego. Então me lembrei de ter visto um gato esquisito vagando pelas vizinhanças dias atrás. Sem nada a perder, procurei por ele e o encontrei disposto a oferecer seus serviços. Levei-o para casa um pouco preocupado, admito. Ele não tinha o mesmo porte orgulhoso dos outros gatos. Ao contrário, parecia até menor que a maioria!
Em casa os outros gatos derrotados olharam para ele com desdém até que o levei para o quarto onde a ratazana monstruosa se escondia. Ele pareceu calmo e indiferente como se não houvesse nada novo no ambiente. Em contrapartida, assim que o rato detectou a sua presença, ficou terrivelmente apavorado, recuando horrorizado para um canto da sala. Diante disso, o estranho gato caminhou até onde a ratazana estava paralisada e a abocanhou pelo pescoço com um golpe rápido e preciso.

* * *

Na manhã seguinte todos os gatos que tinham participado desta estória fizeram uma reunião solene no quintal da minha casa solicitando a presença daquele enigmático gato de rua. Com a sua chegada e apesar dos seus protestos, eles fizeram uma profunda reverência diante dele e explicaram:
“Todos nós somos famosos pela nossa destreza e astúcia, mas nunca soubemos de um rato tão perigoso quanto aquele. Nenhum de nós era capaz de lidar com ele, porém você facilmente o dominou e salvou o dia! Nós todos gostaríamos que você nos contasse qual o seu segredo para nos ajudar em nosso treinamento, pois antes de vê-lo em ação, nos achávamos suficientemente talentosos na arte de lutar contra os ratos.”

Um dos gatos, mostrando um vistoso diploma com o seu pedigree, também disse:
“Eu nasci em uma família com uma grande reputação nesta arte. Desde filhote eu fui treinado para ser um apanhador de ratos. Eu podia saltar o muro mais alto e podia me enfiar em qualquer toca de ratos. Eu podia fazer todo tipo de acrobacias e performances. Sabia fingir que estava dormindo para atrair e acertar os ratos que se aproximassem descuidados. Na corrida nenhum roedor era mais veloz do que eu. Realmente é uma grande vergonha que eu tenha sido derrotado por aquela ratazana monstruosa...”

O gato de rua ouviu estes depoimentos e louvações e, como um legítimo veterano cuja experiência lhe dá a verdadeira autoridade, disse:
“O que vocês herdaram são as técnicas da arte. A preocupação era planejar como combater seu oponente. E a razão porque os mestres antigos desenvolveram estas técnicas era facilitar o nosso trabalho. Porém, vocês tentaram sofisticar as técnicas e torná-las bonitas e elegantes através de inúmeros ensaios e coreografias... ocupados com esta tarefa em vez de testar suas habilidades no caminho da luta, você perderam o foco do treinamento.”

Foi a vez de um gato malhado dar um passo a frente e expressar seu ponto de vista:
“Eu acredito que na arte de lutar a Energia (Ki, Chi…) é o mais importante. Durante muito tempo eu tenho treinado a mim mesmo para cultivar esta força. Agora eu tenho um espírito vigoroso e sou capaz de dominar qualquer oponente. Somente aquele rato misteriosamente conseguiu impedir que eu lançasse minha energia sobre ele. Ainda desconheço a razão do meu fracasso...”

O gato veterano respondeu:
“O fato de ficar polindo os seus poderes psíquicos faz com que tais poderes sem voltem contra você. Basta encontrar um adversário que espelhe esta energia e ela será refletida nos seus olhos. E na batalha pela vida e a morte, no desespero, ninguém se importa se irá escapar ileso. O importante para a vítima é sobreviver e ela irá atropelar cegamente tudo que encontrar pela frente.”

Um gato cinza se adiantou e disse:
“Se nossa força psíquica não pode parar o nosso inimigo e ele leva vantagem se estiver disposto a se sacrificar no combate, não vejo saída. Por longo tempo fui disciplinado a não lutar contra meu oponente, a fugir de conflitos e sempre buscar a conciliação. Quando o inimigo é mais forte, eu cedo e o atraio para uma armadilha. Mas aquele rato era diferente. Ele não se submetia a nada e ninguém e realmente era uma misteriosa criatura. Mas você ainda é mais estranho!”

O gato de rua respondeu:
“Sua busca pela harmonia é artificial. Toda vez que tentar dominar seu oponente com essa atitude, ele irá detectar alguma abertura em sua guarda e poderá ser rápido o bastante para revidar e tomar a iniciativa no combate.
Todavia, não afirmo que tudo o que praticaram foi em vão. Mas sim que continuam pensando na direção errada. Vou lhes contar rapidamente a minha estória e talvez entendam meus motivos e a diferença do meu método. Algum tempo atrás encontrei um velho gato em outra vizinhança que terminou tranquilamente os seus dias tirando seus cochilos. Ninguém jamais o viu caçando, mas sempre que ele miava nenhuma ratazana ousava aparecer na sua presença. Uma vez eu o visitei e também lhe perguntei qual era o seu segredo. E ele me respondeu que somos meros gatos; ratos são a nossa a comida predileta e não importa o quanto a comida tentar revidar, os gatos nunca lutam contra ela. Nós simplesmente matamos e devoramos nosso alimento...
Depois daquele encontro aprendi uma grande lição. Hoje o meu único treinamento é manter as minhas unhas e dentes bem afiados. E aproveitar todas as oportunidades disponíveis para testar estas armas.”

Diante do nosso silêncio perante o seu bom senso, ele se despediu e partiu.

Naquele momento compreendi a verdadeira arte de lutar!

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