terça-feira, 15 de junho de 2010

SOBRE AUTOPROTEÇÃO: DO PASSADO VIOLENTO DAS ARTES MARCIAIS ATÉ O PRESENTE


O Jiu-Jitsu e a maior parte das artes marciais modernas vieram de épocas em que não haviam regras e qualquer arma poderia ser usada nos combates. Hoje estas artes marciais se tornaram esportes e muitas não incluem o treinamento com armas brancas em seu currículo.

Em 1882 o Professor Jigoro Kano desenvolveu o Judô. Exceto por uns poucos kata, como o Kime No Kata, a maior parte da prática do Judô se concentra em arremessos sem o emprego de armas e nas técnicas de agarramento e imobilizações no chão.
Já o antigo Ju-jutsu de onde derivou tanto o Judô Kodakan quanto o Jiu-Jitsu brasileiro era usado em ambientes de guerra onde basicamente o guerreiro deveria lutar vestindo algum tipo de roupa de proteção (armadura) e portando armas (adagas, etc.). E a sua arma principal era o sabre "Katana".
Se um samurai não pudesse usar suas armas, ele seria então forçado a aplicar algum tipo de técnica corpo-a-corpo no combate.
Assim, naquelas artes de guerra o treinamento com armas precedia o treinamento desarmado. Se o guerreiro não estivesse preparado para um ataque surpresa com armas, então sua autodefesa estava irremediavelmente comprometida.

Lembre-se: naqueles tempos, ao se confrontarem com um ou vários inimigos, todos portavam alguma lâmina ou objeto contundente para usar, ferir e matar seus oponentes.
Os estilos antigos de luta sempre tiveram consciência do perigo que uma arma branca representa. E eles nunca se esqueciam de praticar as técnicas de agarramento em pé e dos golpes traumatizantes, evitando sabiamente ir para o solo e se deixar em uma posição vulnerável. Aqueles guerreiros do passado sabiam que avançar e se atracar com um inimigo arrastando-o para o solo e montando nele ou ficando na guarda poderia deixá-los abertos em sério risco de serem apunhalados, pisoteados e cortados. No chão, as pernas e a cabeça ficam abertas aos cortes e estocadas inesperados vindos de vários lados e ângulos. E um terceiro inimigo, fosse um aliado ou um traidor, sempre podia aparecer do nada no calor da batalha...

E aqueles soldados medievais NÃO eram estúpidos.
Eles treinavam sabendo que poderiam ser cortados ou perfurados a qualquer instante. Um golpe súbito com uma lança ou espada acontece em menos de um segundo. Eles não estavam lutando em eventos amigáveis onde armas não eram permitidas e cada lutador estivesse seguro na sua categoria de peso.
Obviamente que as técnicas de solo são importantes, porém, o que acontece quando seu adversário, além de mais pesado, jovem e rápido, traz uma faca, um canivete ou uma caneta pontiaguda escondida com ele?

Vale Tudo” pode até soar como um combate sem regras nos ringues, desde que não seja nas ruas...
A realidade urbana inclui facas, bastões, correntes, cordas... e, é claro, armas de fogo (um estudo revelou que a maior parte dos tiroteios acontece com os atiradores disparando quase à queima-roupa).
Neste caso, as regras esportivas aplicadas no contexto do Vale-Tudo / MMA podem ser o ponto fraco de muitos artistas marciais e lutadores. Mas se você estiver treinando somente para eventos onde não valem armas, então não precisa se preocupar. Além disso, nas situações de defesa pessoal, nem todos irão atacar com uma arma...

Entretanto, se você busca uma autodefesa realista e moderna, outros problemas também devem ser levados em consideração tais como a emboscada.
Um assaltante esperto não irá atacar quando sua vítima está prevenida e pronta para revidar. Não seria justo. Procure na internet as estatísticas policiais. Repare o quanto a maior parte dos crimes envolve algum tipo de armamento. Esses crimes certamente não começaram com o agressor de frente para a pessoa, como se aguardasse a sua vez de agir.
Se você pratica 100% das suas técnicas de agarramento sem prestar atenção para esta realidade em seu treinamento, então você está treinando para uma situação esportiva, em vez de estar se preparando para o pior.
E uma verdadeira arte marcial sempre se prepara para o caos!
Assista as lutas do UFC e similares. Se um oponente pode tocar seus braços e pernas, socar suas costelas, agarrar seu pescoço, etc, durante um clinche e na luta de chão, então aquela mesma mão poderia estar apunhalando e cortando também.
Basta colocar um objeto perfuro-cortante no jogo e todas as regras mudam.
Por isso, uma mera lâmina com duas polegadas pode encerrar um conflito em um piscar de olhos nas mãos de alguém treinado (vide o Percor).

Se tiver tempo para pesquisar mais sobre este assunto, leia meu livro “A Metafísica do Combate”, em especial os capítulos iniciais onde trato do cenário em que as artes marciais surgiram e cresceram. Você verá que há uma enorme diferença entre a luta com armas brancas e com golpes sujos no repertório em comparação com a luta arbitrada por regras esportivas onde vale “quase” tudo.
E os dois links a seguir também podem abrir os seu olhos neste assunto:
http://www.metodoimoto.com/artigos_armasbrancas.asp#direto
http://www.metodoimoto.com/artigos_luta_chao.asp#direto
São informações que lhe darão uma ideia do que aconteceu com as artes marciais quando elas foram tiradas do seu ambiente original. Para torná-las públicas e comercializáveis, seus elementos perigosos foram extraídos e com isso elas perderam a sua essência.
Repare que nos combates televisionados como Judô, Boxe, Greco-romana, Submission Wrestling, MMA, K1, Muay Thai, etc, há regras específicas e regulamentos próprios para cada tipo de torneio. O importante ali é o entretenimento. E naturalmente qualquer arma é proibida assim como determinados golpes e comportamentos bizarros.
Por isso, não confunda esporte com autodefesa, e fairplay com estratégia de luta.
A autoproteção pode ser treinada de um jeito divertido e com segurança, mas continua sendo um assunto sério e vital.
E lembre-se, MARCIAL significa GUERRA, não ESPORTE.
E na guerra, existem tanto as armas quanto a morte.

NOTA: os grandes lutadores profissionais de UFC, Muay Thai, etc, são com certeza atletas talentosos, brutais, resistentes e extremamente preparados fisicamente para competir e vencer. E entre eles também existem artistas marciais muito experientes, capazes de se proteger perfeitamente com suas habilidades. Mas não estou falando desses lutadores em específico ou das suas artes marciais e seus golpes prediletos. Eu estou falando de você, no caso particular da autodefesa. E mesmo os lutadores de elite do MMA deveriam repensar seu treinamento. Eles também deveriam complementar e aperfeiçoar sua técnica aprendendo a manejar armas brancas bem como a usar e a se defender dos golpes sujos como ataques aos órgãos genitais, olhos, dedos, etc. O recado está dado. Bons treinos.

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