quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A ANTIGA E QUASE ESQUECIDA ARTE DE ESCUTAR


Nessas duas décadas ensinando artes marciais, percebi que todos os praticantes têm problemas para acompanhar os movimentos e passos do instrutor. E Mesmo os mais atléticos, de boa coordenação motora e já com certa experiência e controle corporal começam também com dois pés esquerdos na hora de aprender os golpes e manobras do MÉTODO IMOTO...

Qual a dificuldade em imitar um simples movimento com os braços e as pernas quando conseguimos memorizar tantos dados captados caoticamente em nosso dia-a-dia sem maiores problemas?

A resposta que encontrei é que com a mente cheia de pensamentos os cinco sentidos são parcialmente anestesiados. Reduzimos a consciência do espaço e do tempo ao nosso redor e isso atrasa o aprendizado natural através da observação pura e desimpedida.

Ciente disso, incentivo os praticantes a "escutarem" a técnica ou exercício que lhes será demonstrado na aula. Se ouvirem o som de tudo que estiver acontecendo ao redor e focarem sua atenção na ampliação da audição — em vez de se limitarem à visão —, na fase tátil de experimentação e contato conseguirão recriar aquela sonoridade registrada/memorizada enquanto ouviam e assistiam a demonstração.

Por isso costumo dizer que um professor é apenas um modelo vivo que está ali para ser ouvido, assistido, farejado, tocado e copiado para, posteriormente, ser descartado. Uma vez que o aluno tenha se descondicionado dos velhos padrões neuromotores, estará capacitado a empregar a sua criatividade inata e adaptar as técnicas e movimentos assimilados para o seu biotipo individual atender às suas necessidades e inclinações instintivas.

O potencial de aprendizagem humano é muito maior e mais acelerado do que imaginamos.
Disciplina é justamente aprender com a experiência de terceiros e consigo mesmo, sem depender da orientação tendenciosa de alguma autoridade. Em outras palavras, é ganhar autonomia até ser um autodidata na matéria que escolheu abraçar.

Esta é a jornada sem fim da maestria que todo especialista inevitavelmente percorre para se manter progredindo.

A conquista de uma liberdade em uma área leva a outra e mais outra vitória. E o acúmulo crescente de recompensas decorrentes da consolidação de novas habilidades corporais e intelectuais surgirá na forma de benefícios para sua saúde e segurança graças à sua perseverança e aos seus investimentos pessoais.

Nada de valor duradouro será conquistado sem esforço e determinação acima da média.

Aliás, em vez de ler esta postagem na forma moderna da leitura mental silenciosa, leia este texto como os monges medievais recitavam seus livros: em voz alta. Ouça a própria voz e a informação captada terá muito mais profundidade e significado. Faça o teste, acione seu radar e confira o poder de escutar. Então poderá extrapolar a arte de ouvir e aprender para outras atividades. Os resultados positivos são garantidos.

Permita que a mensagem alcance o cérebro através daqueles dois pavilhões de acesso direto a ele chamados popularmente de "orelhas". E para encerrar, uma outra dica: encontre sua orelha dominante, a esquerda ou a direita, e use-a para facilitar o processo mnemônico.

Isso poderá literalmente dar um outro tom à sua vida, pois toda comunicação é uma via de mão dupla. Ouça seus semelhantes e escute o que estiver lendo, falando e fazendo. Tudo tem um ritmo e a arte de escutar é entrar em sintonia com vibrações internas e externas.

Outro assunto correlato ao tema da sensorialidade aplicada e desenvolvida na autodefesa você encontrará neste meu artigo publicado em 2010 no website MinhaVida.com.br.

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